Monografia sobre a Rádio Cidade, feita por Érika Carvalhosa


A Explosão do FM

Essa “explosão” se chamou Rádio Cidade que entrou no ar no dia primeiro de Maio de 1977.

Até então, as poucas emissoras de FM que já estavam no ar na década de 70 se resumiam exclusivamente a tocar músicas para sonorizar escritórios e consultórios médicos. As Rádios Tamoio e Mundial, ambas AM, com todas as deficiências de som eram as únicas fontes para quem queria ouvir música de melhor qualidade no rádio do carro ou em casa. A Rádio Mundial AM que se tornou a cara da zona sul do Rio revelou um dos maiores disck-jockeys da época, o inovador BIG BOY e seu “Alô crazy people”. O “Show dos Bairros” estourava na audiência.

O FM era visto pelos empresários de radiodifusão como economicamente inviável. Não havia interesse dos fabricantes de rádio colocarem a banda FM nos aparelhos que fabricavam. Enquanto isso, o FM já era uma realidade em outros países. Coordenados por Carlos Townsend que havia voltado recentemente de Miami onde fez um curso de rádio e tinha se empolgado com o nível de desenvolvimento das FMs de lá, os locutores titulares Eládio Sandoval, Romilson Luiz, Fernando Mansur, Jaguar e Ivan Romero e os folgadores Paulo Roberto e Sérgio Luis entraram no ar para modificar a história do rádio no Brasil. Este foi o time original que inaugurou a Rádio Cidade do Rio de Janeiro.

O impacto do FM foi devastador sobre as rádios AMs musicais, inclusive porque não se justificava que discos com qualidade estéreo continuassem sendo reproduzidos em mono. Somando-se música de boa qualidade em estéreo com uma equipe de locutores jovens e altamente criativos, a Rádio Cidade entrou no ar com uma comunicação e seleção musical totalmente revolucionárias, diferente de tudo o que o radio fazia na época. Os locutores eram seus companheiros no rádio.

Jaguar com sua alegria, alto astral e sotaque nordestino e Fernando Mansur com a elegância e bom gosto nos comentários e entrevistas comandavam a parte da manhã. Eládio Sandoval com o jeito irreverente e inovador formou com o também irreverente e criativo Romilson Luiz , uma dupla de sucesso que criou no FM o humor inteligente e de qualidade que dominava as tarde no Rio. A passagem de horário durava cerca de 20 minutos com boas risadas e fidelidade dos ouvintes. Eládio e Romilson compuseram e criaram as músicas de Natal, Ano Novo, Carnaval e de comemoração dos aniversários da rádio. Foi idéia dos dois colocar os locutores juntos para cantarem, o que nunca havia sido feito antes.

Ivan Romero com suas mixagens fazia a noite na Rádio Cidade virar uma “discoteca” para se ouvir no carro ou em casa, tocando os maiores sucessos das paradas americanas. Era o “ Cidade Disco Club ” com sua introdução inesquecível.

Alguns nomes se juntaram a equipe da Rádio Cidade: Paulo Martins, Francisco Barbosa, Márcio Seixas, Luciano Durso, Jorge Márcio e Kaká.



A História Completa da Rádio Cidade FM

Às 6h do dia 1º de maio de 1977 entrava no ar, pela primeira vez, a Rádio Cidade do Rio de Janeiro. Enquanto veículos de comunicação eram vigiados pela Censura e profissionais perseguidos pela ditadura, a Rádio Cidade surgia no dia Internacional do Trabalho.

Ao contrário do que acontecia em outros veículos de comunicação, os profissionais da Cidade não sofreram tanto com a ditadura como outros que trabalhavam em outras rádios. Para o primeiro Coordenador da Rádio Cidade Carlos Townsend, “os militares até gostavam da Rádio Cidade”.

O Jornal do Brasil era um veículo que contestava o governo ditatorial mas, apesar disso, a Rádio Cidade não sofria qualquer tipo de intervenção ou Censura, como os profissionais do próprio jornal. Claro que existia um código que era passado diariamente pelos censores, de qual assunto poderia ou não ser falado no ar. “Nunca tivemos problemas com os militares, nenhum locutor foi preso enquanto trabalhava. O locutor Fernando Mansur era contra o governo, mas ele não pegava o microfone e saia agredindo verbalmente ninguém. Cada um tinha o seu posicionamento e deixava claro isso de uma forma muito sutil”, declarou Townsend.

A sabedoria dos profissionais era nunca misturar as ideologias políticas com o trabalho desenvolvido na Rádio. “Nunca sofremos qualquer pressão dos militares até porque, não misturávamos política com o trabalho”, disse Clever Pereira.
Apesar da Rádio ter surgido em 1977 portanto treze anos depois do golpe militar de 1964, o Brasil ainda sofria com o cerceamento da palavra. A Cidade mantinha a mesma postura da empresa mãe, o Jornal do Brasil, que possuía uma posição independente, mas com muito bom senso. “Não havia nenhum envolvimento explícito dos locutores, primeiro por ser uma rádio musical e não editorial e, também, porque o pior já havia passado, mas deixávamos implícita a nossa postura antiditadura”, declarou Marco Antonio Rodrigues, locutor da Rádio Cidade.

Para o locutor Jaguar, “a Rádio Cidade já surgiu antenada e à frente do seu tempo. Já nasceu com a tarja de revolucionária, o que na época a levou a ser observada pelos olhos turvos da Censura. Mas como ela veio trazendo uma mensagem jovial, alegre, não cabia em seu contexto algo que pudesse provocar a ira da Censura. Como andávamos em tempos bicudos, procurávamos não provocar a censura com nossos noticiários. É claro que não faltavam aquelas alfinetadas inteligentíssimas de alguns apresentadores, no lombo da Censura”, afirmou Jaguar.

O rádio FM no Brasil começou como link, uma ligação entre o estúdio e o transmissor. Antes disso, essa ligação era feita através de linhas telefônicas. Após a Segunda Guerra Mundial, os empresários descobriram que o FM servindo como link, substituiria a linha telefônica.

Na década de 60, o Governo Federal resolveu reestruturar o espectro do FM. As antigas concessões foram cassadas, proibindo assim o uso do FM como link. Em 1955 surgia a primeira emissora de FM, a Rádio Imprensa, que vendia sua programação para os Supermercados Disco. A Imprensa possuía dois canais, um era comercial e o outro não comercial, cuja programação musical era vendida para as lojas e escritórios.

O rádio FM ganhou força no início da década de 70 com a JB FM, que ainda era transmitida em mono. A partir de 1973 a Globo entrou com o FM estéreo. A Rádio Cidade já surgiu como estéreo e uma das suas identificações no dial, era quando acendia a luz vermelha dos aparelhos de rádio.



Curiosidade

Podemos considerar que um dos motivos do Brasil começar a fabricar radioveicular com banda de FM, foi o advento da Rádio Cidade. O grande estouro da mesma que, com apenas quatro semanas, se tornou a primeira rádio com maior audiência no IBOPE é que incentivou a fabricação desses aparelhos que atualmente são tão comuns. Na década de 70 poucos rádios com banda de FM eram fabricados no Brasil. Na maioria das vezes esses aparelhos eram trazidos do exterior, onde essa banda já era explorada.



A idealização da Rádio Cidade

O Sistema JB “sonhava” com um canal de televisão, mas como não era a favor do governo ditatorial e por isso o contestava, não ganhou a ajuda do mesmo para o desenvolvimento e investimento do canal de TV. Depois do “sonho” adiado, era a vez de se investir em mais uma emissora de rádio, já que o JB possuía as rádios JB AM e FM. Em 1976 o JB comprou a Rádio Jornal Fluminense que era um canal de rádio de Niterói, pedindo a transferência dela para o Rio.

A Rádio JB FM era classificada como adulto contemporânea. Tocava um pouco da cada estilo musical, de MPB ao Jazz. Mas o sistema queria uma rádio diferente daquelas já existentes no espectro do FM. Algo que fosse uma inovação no rádio carioca, com uma roupagem mais jovem. O Carlos Lemos, então diretor das Rádios JB AM e FM, convocou três profissionais do Sistema JB para desenvolverem projetos diferentes para essa nova emissora.. Foram chamados os seguintes profissionais: Alberto Carlos de Carvalho, Clever Pereira e Carlos Townsend.

Alberto Carlos de Carvalho era programador musical do Programa Sessenta Minutos de Música Contemporânea, que ia ao ar diariamente às 15h. Havia sido prometido ao Beto – Alberto Carlos de Carvalho – que se o Sistema JB adquirisse mais uma emissora de FM, essa rádio seria dada a ele e teria um formato Rock, que serviria para concorrer com a Rádio Eldo-Pop, que atualmente é a Rádio 98 FM, pertencente ao Sistema Globo”, declarou Carlos Townsend.

Como Carlos Townsend tinha acabado de voltar dos Estados Unidos onde se formou em radialismo pela Miami University, onde as rádios FMs eram dinâmicas e com formatos musicais bem diferentes, ele já tinha um conceito de rádio jovem mais apurado. “Quando o Jornal do Brasil comprou a Rádio Jornal O Fluminense, eu tinha acabado de voltar dos EUA com uma cultura pop muito grande”, declarou Carlos.

A Clever Pereira, que havia sido coordenador da Rádio JB AM e na época era coordenador do Sistema JB, foi pedido também, um projeto para esta nova emissora. Cada um teria que desenvolver um projeto e gravar em uma fita cassete.

O projeto sugerido pelo Alberto Carlos de Carvalho era de uma rádio que teria basicamente uma programação musical de Rock progressivo e o público alvo seria a juventude da Zona Sul carioca. O Clever Pereira desenvolveu um projeto mais popular, era a continuação do que já se ouvia nas Rádios Tamoio e Mundial. Já Carlos Townsend, apresentou o projeto de uma rádio jovem, com locução, no estilo das rádios americanas, que englobaria vários estilos musicais principalmente a disco music, estilo que estava em voga nos EUA. O projeto escolhido foi o do Carlos Townsend. Segundo Clever Pereira, “a fita escolhida foi a do Carlos. Eu competi e perdi, acho que eles acertaram na mosca. Para mim foi a derrota mais gloriosa que eu já sofri. O projeto dele era perfeito.”

Como não existia nenhuma rádio com uma programação segmentada, nem tampouco uma rádio jovem, se tinha dúvida do melhor formato para se fazer essa nova emissora. “Na verdade, eles tinham dúvidas de qual projeto daria certo. Se uma rádio segmentada, somente com um tipo de programação musical ou, se uma emissora de programação diversificada”, declarou Townsend.

Após a escolha do projeto era a vez de buscar novas tecnologias além de selecionar os locutores que mais se adaptariam a esse novo formato de rádio que estava surgindo. “Depois que o meu projeto foi escolhido eu sabia que o que levaria mais tempo, seria a escolha das músicas antigas que tocariam na programação e a seleção dos locutores. Durante nove meses, num trabalho solitário, eu ouvi 100 mil discos da discoteca da Rádio JB AM e foram selecionadas 2 mil músicas para entrarem na lista que eu chamei de Memories, que seria o playlist das músicas antigas”, afirmou Carlos.

Na década de 70 existiam duas rádios no espectro do AM, que eram exclusivamente musicais – as Rádios Tamoio e Mundial. Esta última tinha como atração principal o Disc Jóquei de rádio Big Boy, que faleceu em 1976. “Uma das maiores tristezas que eu tenho na vida é o Big Boy não estar vivo para ouvir a Rádio Cidade, pois quando a Cidade foi ao ar ele já havia morrido”, declarou Carlos Townsend.

Até hoje muita gente acha que a Rádio Cidade foi uma cópia de uma emissora da Califórnia – Estados Unidos. Na verdade, a rádio sofreu influência tanto das rádios americanas como de rádios Tamoio e Mundial. E das rádios americanas preponderou o formato de locução e dinamismo. “Eu queria fazer uma adaptação do rádio americano. Tem gente que diz que a Cidade é uma cópia das rádios da Califórnia, mas não foi uma cópia e sim uma adaptação. O programa Noturno, produzido por mim, ia ao ar na Rádio JB FM também foi uma prévia do que seria a Rádio Cidade. Na minha vida, havia três influências muito grandes. A Rádio Mundial AM e Tamoio AM, que eram as emissoras que eu ouvia no Brasil e das rádios WHYI e K96, que eram emissoras de Miami. Elas preponderaram na composição do formato da Rádio Cidade”, afirmou Carlos Townsend.



Introdução das vinhetas – declaração na íntegra de Clever Pereira

As vinhetas eram chamadas de IDS (Indedifications jingles). Em 1976 Clever Pereira foi convidado para participar da NAB (National Association Broadcasting), Congresso Mundial de Radiodifusão que acontece anualmente em Las Vegas. A seguir o depoimento na íntegra de Clever Pereira sobre como foram feitas as primeiras vinhetas para a Rádio Cidade.

“Por conta da implantação da Rádio JB FM de Belo Horizonte, em agosto de 1976, portanto nove meses antes da Rádio Cidade ir ao ar, fui convidado para um congresso de rádios em Las Vegas, a NAB. Lá eu conheci um dos maiores produtores de vinhetas do Mundo, o Tom Parma, que morava em Dallas. No elevador do hotel ele me perguntou o que eu fazia no congresso e expliquei que estava ali por conta da implantação de uma nova rádio no Brasil. Então, ele me ofereceu um pacote de vinhetas. Aí eu perguntei quanto custaria esse pacote e ele me disse que sairia por três mil dólares. Peguei o telefone e liguei para o Carlos Lemos que estava no Brasil e contei a história e disse que o pacote custava US$ 3 mil dólares. Na mesma hora o Lemos me pediu para esperar uma resposta da Direção, mas eu me antecipei e fui logo encomendando o pacote para o Tom. Quando me ligaram para dizer que eu podia mandar fazer as vinhetas, já estava tudo combinado.

A única exigência da direção da rádio era que a base musical dessas IDS fossem da música Cidade Maravilhosa. Fui para Dallas de carona com o Tom e sua esposa para podermos produzir as vinhetas”. Para Carlos Townsend, “realmente elas deram uma nuance diferente. Ninguém esperava esse resultado. Nos Estados Unidos já se usava esse recurso há muito tempo. As vinhetas serviram para dinamizar os programas”, afirmou Carlos.

As vinhetas para uma emissora de rádio são os adereços que enfeitam, harmonizam, dão um colorido e dinâmica na programação. “Para a Cidade, as vinhetas contribuíram tanto que, às vezes, tinha ouvinte que ligava pedindo para nós colocarmos a que ele gostava mais e pedindo também para darmos um tempo para entrar com a música para ele poder gravar a vinheta”, declarou o locutor Jaguar.

As vinhetas serviram também para deixar a marca da rádio registrada no ar. Não precisava saber o número da rádio no dial, era só esperar alguns minutos que entrava a vinheta dizendo que rádio era aquela. “As vinhetas sempre foram cuidadosamente produzidas, primeiramente nos EUA, com o objetivo de imprimir um ritmo marcante na programação. Com o tempo se tornaram a marca registrada da Rádio Cidade”, declarou o locutor Ivan Romero.



A seleção dos profissionais

A Rádio Cidade surgia com uma proposta nova, um formato de programação e locução também inovadoras para o rádio FM no Brasil. Os locutores tinham como característica habitual serem muito empostados, sem dinâmica, além de não dominarem a operação da console (mesa de áudio do estúdio).

Depois do formato aprovado era a vez de selecionar os futuros locutores, achar aqueles que mais se adaptariam a essa nova proposta. “Eu tive uma certa dificuldade para encontrar os profissionais para trabalharem na rádio. Achava que os locutores eram muito empostados e sem dinâmica e tinha ainda o problema deles não operarem a console”, declarou Carlos Townsend.

A Ética também não permitia chamar locutores de outras rádios, mas não havia opção diferente desta. “Além de todos esse problemas, eu queria evitar chamar os profissionais de outras rádios, mas não tive muita alternativa.”, afirmou Carlos.

Para o processo de seleção se inscreveram cento e vinte locutores. Desses inscritos foram selecionados doze, para ficarmos apenas com sete. Foram selecionados justamente locutores de outras rádios. “Da Rádio Tamoio vieram os locutores Romilson Luiz e Jaguar. Da Rádio Nacional o Ivan Romero. O Eládio Sandoval já trabalha no Sistema JB. O Fernando Mansur trabalhava comigo no Noturno, programa que eu produzia na JB FM, ele também foi escolhido para fazer parte do primeiro time de locutores da Cidade. Os folguistas eram Paulo Roberto e Sérgio Luis, que vieram de rádios de Niterói, onde eles moravam”, afirmou Townsend.

Depois de concluído o processo de seleção era a hora de treinar os locutores escolhidos. Durante três meses, eles foram treinados pelo coordenador Carlos Townsend. Um mês antes da Rádio Cidade ir ao ar pela primeira vez, eles fizeram testes no circuito interno do prédio do Jornal do Brasil. Esse teste simulava como seria a programação e como seria a locução que iria ao ar. “A seleção do chamado primeiro time esteve a cargo de Carlos Townsend. Ele foi uma pessoa fundamental para que a Rádio Cidade chegasse aonde chegou. Foi um trabalho duro, persistente, sem hora para começar nem acabar”, declarou Ivan Romero.



Criação das mensagens para datas comemorativas

As mensagens para datas comemorativas como aniversário da Rádio, Natal e Ano Novo, começaram com uma brincadeira dos locutores Romilson Luiz e Eládio Sandoval. A primeira mensagem foi criada logo no ano de estréia para comemorar o Natal de 1977. A gravação foi feita nos estúdios da própria Rádio Cidade, com letra e música de Romilson Luiz e Eládio Sandoval. Romilson tocou piano e os outros locutores no vocal.

A segunda mensagem gravada era para comemorar o Ano Novo de 1978. Com letra e música de Romilson Luiz e Eládio Sandoval. E mais uma vez o Romilson Luiz tocou piano e os outros locutores no vocal.
A terceira mensagem foi para comemorar o 2º aniversário da Rádio Cidade, 1979. Esta mensagem tinha como arranjadores os músicos do grupo A Cor do Som, produção de Guti Carvalho e foi gravada nos estúdios Transamérica.

A quarta mensagem era para comemorar o Natal de 1979 e partiu de uma montagem do locutor Ivan Romero para a música Rapper’s Delight, do Sugarhill Gang. Esta produção já foi um pouco mais sofisticada. Chamaram o grupo Os Funks, que posteriormente passou a se chamar Roupa Nova e Mestre Marçal para fazer a base musical. Os arranjos ficaram a cargo do maestro Eduardo Souto Neto com a participação especial de Ed Lincoln. Com letra de Romilson e Sandoval esta mensagem também foi gravada nos estúdios Transamérica.E a cada ano essas mensagens eram esperadas tanto pelos ouvintes como pelos profissionais da rádio. Abaixo a ordem cronológica e a ficha técnica das mensagens comemorativas até o ano de 1984.

Segundo o locutor Ivan Romero, “a dedicação de todos era total nestas mensagens e o público esperava ansiosamente por elas. É como se fosse um presente de fim de ano da Rádio para os ouvintes”. No início as mensagens foram criadas somente para animar e presentear os ouvintes. O intuito da rádio também era passar cultura. Cada tema para as mensagens tinha um motivo especial. Em 1981, o tema era Trenzinho do Caipira de Villa-Lobos, um dos nossos maiores artistas. “A intenção da Rádio Cidade também era passar cultura para os ouvintes, por isso escolhi uma música de Villa-Lobos para servir como base e fonte de inspiração para o fim de ano de 1981. A letra foi modificada 56 vezes”, afirmou Clever Pereira. Para todos os lançamentos de mensagens era realizado um programa especial detalhando o motivo do tema escolhido, como foram feitos os arranjos, quem participou, quem produziu e em qual estúdio foi gravada a mensagem.

As mensagens eram tão importantes tanto para os profissionais da rádio como para os ouvintes. “As mensagens eram uma espécie de presente para os ouvintes e eles ficavam esperando as datas comemorativas para o lançamento delas. Essas mensagens eram tão importantes, que se tornaram as mais solicitadas da programação”, declarou o locutor Jaguar.



A importância da Rádio Cidade sobre diversos pontos de vista

A Rádio Cidade foi a emissora que revolucionou a banda FM no Brasil. Foi a primeira sob muitos aspectos. Para o radialista e ouvinte da Rádio Cidade, Rui Taveira, “a Cidade foi um marco no FM brasileiro, foi uma inovação e a partir daí, todas as demais emissoras seguiram o formato introduzido pela Cidade”, afirmou Rui.

No sentido cultural a Cidade foi importantíssima, lançou bandas brasileiras na década de 80, criou mensagens comemorativas, enfim, foi a pioneira em muitos aspectos. “A importância da Rádio Cidade no sentido cultural foi enorme, pois abriu a possibilidade para vários intérpretes e bandas brasileiras, além de expor música internacional de boa qualidade. Comercialmente foi um sucesso e também um desastre, pois todo dono de rádio achou que ia faturar o mesmo que a Cidade faturava. Artisticamente foi importante, pois o rádio musical estava engessado em fórmulas escritas pelos diretores. Os locutores eram meio autômatos. A Rádio Cidade mudou o paradigma”, afirmou Clever Pereira.

Já para o locutor Marco Antonio Rodrigues, “a Cidade teve uma importância muito grande para a Música Brasileira. Apesar de termos mais de 65% de música internacional na nossa programação, nós valorizávamos o artista brasileiro. Lançamos diversos artistas e bandas como Blitz e Lobão, entre outros”, afirmou Marco Antonio.
Antes da Rádio Cidade surgir, as rádios FMs tinham uma programação musical chamada de Vitrolão que dizer, tocava uma música atrás da outra, sem que um locutor anunciasse a música que seria tocada. Para Luís Marques, técnico de áudio do Sistema JB desde 1971, “a Cidade acabou com o famoso Vitrolão, programação somente musical, habitual naquela época. A partir da Cidade o rádio FM começou a ser mais comunicativo, com a participação dos ouvintes, lançamentos e informações”, afirmou Luís Marques. Já Valceli Corrêa, operador de áudio e sonoplasta, declarou: “A Rádio Cidade revolucionou o dial das FMs, mudando o cenário radiofônico, já que as outras eram consideradas rádios de elevador e, segundo os jornalistas do JB a Cidade foi uma porrada na vidraça”, afirmou Valceli.

Na locução a Cidade também inovou. Antes os locutores, além de possuírem uma bela voz, eles eram muito empostados, sem dinâmica, mais pareciam uns robôs. Os ouvintes não conseguiam distinguir se o programa era gravado ou era ao vivo. Não havia uma interatividade com o ouvinte. O locutor Francisco Barbosa acredita que a Cidade transformou a comunicação no Brasil. “Antes da Rádio Cidade a locução não só nas AMs como nas FMs, era austera, séria e não permitia brincadeiras ou quaisquer deslizes, como tossir ou rir ao microfone. Com o chamado marketing do erro, implantado pela Cidade, a emoção, a imaginação e o bom humor foram instaurados na comunicação brasileira”, afirmou Barbosa.

A Rádio Cidade pode ser considerada a primeira rádio com o formato jovem. Foi a partir dela que se criou o segmento jovem em rádio. “A Rádio Cidade para o meio rádio foi o início de tudo, principalmente para o formato jovem. Ela veio inaugurar um canal que praticamente não existia e foi extremamente importante porque influenciou uma geração. O rádio que é feito atualmente tem muito da Cidade”, dizia o locutor Paulo Martins. Para o maestro Eduardo Souto Neto, “a Rádio Cidade foi a primeira emissora de FM que direcionou sua audiência para um público amplo e jovem em sua maioria, através de uma programação dinâmica que mesclava a disco music com o melhor da MPB e do POP brasileiro, dando ênfase aos lançamentos de artistas novos e dos artistas conhecidos também”. Para o locutor Paulo Roberto, “a Cidade passou a valorizar o jovem”.



Conclusão

A Rádio Cidade foi o início do rádio jovem. Com o que se podia fazer na época a Cidade revolucionou um dial que antes era utilizado para fazer um link para o canal de AM. Ela transformou o conceito de rádio FM. Modernizou a tecnologia, trouxe artifícios já utilizados em outros países, para se dar dinâmica ao rádio e inovou na forma de locução. Apresentou aos locutores uma outra função, que é a de operador de mesa que, atualmente, é normal.
Devemos agradecer à Rádio Cidade pelo rádio interativo, segmentado e dinâmico que temos, pois foi ela a primeira rádio a fazer isto tudo. As importâncias vão além. A Cidade se preocupava com a cultura e com a informação que era passada ao ouvinte. Tudo era cuidadosamente estudado e pensado antes de ir ao ar.

No sentido tecnológico, a Cidade não contava apenas com um efetivo dos melhores profissionais de rádio. Contava também com equipamentos modernos, sempre em busca de um som melhor aliás, de tudo o que se podia ter em termos de equipamentos para rádio, a Cidade sempre procurava o melhor.

Lançou tecnologia, pois foi a primeira rádio no Brasil a tocar um CD, o do cantor norte americano Michael Jackson, com o disco Thriller, em 1983. Não podemos esquecer que foi esta rádio que lançou diversos artistas e bandas brasileiras, além de tocar muita música brasileira, mesmo que estas fossem músicas que, hoje, consideramos “brega” e até as músicas de protesto em plena ditadura.

Foi uma rádio ao mesmo tempo politizada e coerente sem ser radical e agressiva. Com a inteligência de seus profissionais conseguiu ficar no ar em plena ditadura sem nunca ter sido censurada pelos militares. Se vivêssemos numa ditadura com as rádios que temos hoje, posso afirmar que muitas sairiam temporariamente do ar, pois esses profissionais de hoje jamais saberiam se portar com inteligência e cautela como os da Rádio Cidade.